Já é o fim do dia. Ele está sentado no banheiro, com um
calção e sem camisa, pés descalços. Segura seu rosto pálido com as duas mãos
sobre os cotovelos apoiados nos joelhos. Pensa: Já é o fim do dia. Com a
cabeça para trás, respira forte. Pestaneja lento, coloca as suas mãos na
cintura e estica a aflição da coluna. O chão é frio, ele percebe que seus pés
estão paralisados desde a última golfada. Dá pra ouvir o furor dos pássaros no
parque; o dia vai resvalando, ficando cinza,
abandonando a casa, e algo parece que deveria acontecer. Acho que é isso que me
entristece no fim do dia, nenhum sinal? qualquer esclarecimento?; hoje nem posso
ir pela rua, encontrar alguém, ver montes de gentes e me assombrar de onde é que elas saem? Levantou-se,
levemente encurvado, olhou-se no espelho e passou a pasta de dentes na escova. Revoltava-lhe
a ansiedade, esticava-se ao ar, não o alcançava satisfatoriamente. Saiu para
atender a campainha, notou que já podia acender a luz, seu corpo refletindo no
vidro da janela precisava comer. Abriu, tomou o pacote, pagou, fechou. Ele
cuspiu a espuma, lavou, deitou-se no sofá, ofegante. Abriu o pacote; tudo lhe
enjoava, não sabia se estava em algum estado de delírio ou se era apenas o
entardecer. Tentou comer, não pode sequer engolir, fechou. A rua já minava, foi
até a janela. O verde claro da grama dava um fundo desbotado à profusão das árvores
maiores, que se avultavam já enegrecidas, secretas. Ventava devagar, e o vento não
fazia diferença entre o som dos carros. O vento da terra girando, como que não me seguro? Engoliu forçosamente
um antitérmico. Estava cada vez mais concentrado em sua dor, em seu falto,
necessidade, incômodo. Não sei que horas eram, mas foi sentado, com a cabeça amparada
no encosto do sofá. Provavelmente há uns dois dias. Teve febre, chamou ajuda em
seu tremor – mas já não podia com o movimento, passou frio, forçou o ar uma,
duas, três, colapsou. Abriu os olhos, viu sua lâmpada branca em plena indiferença,
fechou.