quarta-feira, 9 de maio de 2012

malabares


O menino fechava o cenho
Afinando sonho
E gravidade.

Meus olhos de esquina, esquecidos,
Simpáticos às coisas que dançam
deslumbravam naquele espaço:
é, coisa bonita é fim de tarde com malabares.

terça-feira, 8 de maio de 2012

IV - trabalhar


(se eu falasse como sou, sussurraria
entre lampejos de voz)

Por qual poro

Qual dedo, quais unhas

Qual gozo, qual mijo, qual bosta

Com qual violência – de repertório

De língua, de olhos,

É LOUCO, MEU CORPO É LOUCO

Que ânsia, que náusea

Que larva qual cobra

Qual vermes na goela.

Que manto que branco
Que que que me
Que cobre, me preso, me ódio,
Me ferrugem da sobrevivência.

[O corpo é um túnel, basta fechar os ouvidos.
O corpo tem o vento da velocidade,
Basta fechar os ouvidos.
O corpo guarda uma cachoeira,
Basta fechar os ouvidos.
O corpo é surdo, fechado,
Basta fechar muito muito bem os ouvidos.]

Meu corpo sobra, néscio,
Não quer viver este coisa alguma.

sábado, 5 de maio de 2012


Já é o fim do dia. Ele está sentado no banheiro, com um calção e sem camisa, pés descalços. Segura seu rosto pálido com as duas mãos sobre os cotovelos apoiados nos joelhos. Pensa: Já é o fim do dia. Com a cabeça para trás, respira forte. Pestaneja lento, coloca as suas mãos na cintura e estica a aflição da coluna. O chão é frio, ele percebe que seus pés estão paralisados desde a última golfada. Dá pra ouvir o furor dos pássaros no parque; o dia vai resvalando, ficando cinza, abandonando a casa, e algo parece que deveria acontecer. Acho que é isso que me entristece no fim do dia, nenhum sinal? qualquer esclarecimento?; hoje nem posso ir pela rua, encontrar alguém, ver montes de gentes e me assombrar de onde é que elas saem? Levantou-se, levemente encurvado, olhou-se no espelho e passou a pasta de dentes na escova. Revoltava-lhe a ansiedade, esticava-se ao ar, não o alcançava satisfatoriamente. Saiu para atender a campainha, notou que já podia acender a luz, seu corpo refletindo no vidro da janela precisava comer. Abriu, tomou o pacote, pagou, fechou. Ele cuspiu a espuma, lavou, deitou-se no sofá, ofegante. Abriu o pacote; tudo lhe enjoava, não sabia se estava em algum estado de delírio ou se era apenas o entardecer. Tentou comer, não pode sequer engolir, fechou. A rua já minava, foi até a janela. O verde claro da grama dava um fundo desbotado à profusão das árvores maiores, que se avultavam já enegrecidas, secretas. Ventava devagar, e o vento não fazia diferença entre o som dos carros. O vento da terra girando, como que não me seguro? Engoliu forçosamente um antitérmico. Estava cada vez mais concentrado em sua dor, em seu falto, necessidade, incômodo. Não sei que horas eram, mas foi sentado, com a cabeça amparada no encosto do sofá. Provavelmente há uns dois dias. Teve febre, chamou ajuda em seu tremor – mas já não podia com o movimento, passou frio, forçou o ar uma, duas, três, colapsou. Abriu os olhos, viu sua lâmpada branca em plena indiferença, fechou. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012


Rua abaixo, rua abaixo
Pálpebras cansadas
Ombros de tartaruga
Rua abaixo, rua abaixo
Boca seca, nenhuma coceira
Rua abaixo, rua abaixo
Até subir pelo outro lado do mundo.

quarta-feira, 2 de maio de 2012


Disco turvo roda quebrado.
Eu falei que não tocaria.
O que há dentro do disco?
Uma renúncia.
Há o outro lado do verso, o outro lado da música
Há o silêncio. O outro lado do rasgo no rosto
O desconforto.
Regresso em desalinho
Puro agudo embaralho
pula a agulha
Fora da bandeja e ri
Espantalho de unhas com olhos vermelhos:
Não há escapatória
Pregue teu olho para o outro lado
A música, o riso, a linha, harmonia, progresso,
Estão pro outro, do outro lado.

*

A matéria fundamental trará a luz, trará a coerência
Que as mortes e suas datas me tiram
Que a epopéia milenar me assenta
Que a velhice me promete louca e serena
Que a melodia me tenha abandonado?

domingo, 29 de abril de 2012


Madrugada escassa
euforia lassa.
Perderei o nome dessa rua
como o ruído amansa em direção à solidão.

O silêncio se rompe
cai uma larva
que engatinha remando ao leste:
meus olhos ardem a visão.

Manhã erguendo-se
no peito que respira o ontem
e sonha o inválido retorno.
Que gosto de irrealidade, que gosto morto.

Sai a larva porta afora

o sol a fulmina
e minha casca dorme um oco ainda rubro.